quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Você é um anarquista? A resposta pode te surpreender!

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Texto traduzido do original "Are you an anarchist? The answer may surprise you!", de 2000.


Por David Graeber

É possível que você já tenha ouvido algo sobre quem os anarquistas são e no que eles deveriam acreditar. É possível que praticamente tudo o que você ouviu seja bobagem. Muitas pessoas parecem pensar que anarquistas são proponentes da violência, do caos e da destruição, que eles são contra todas as formas de ordem e organização, ou que eles são niilistas malucos que só querem por tudo abaixo. Na realidade, nada poderia ser mais distante da verdade. Anarquistas são apenas pessoas que acreditam que seres humanos são capazes de se comportar de forma razoável sem terem que ser forçadas a isso. É realmente uma ideia muito simples. Mas é uma que os ricos e poderosos sempre acharam extremamente perigosa.

Em sua forma mais simples, as convicções anarquistas assumem duas premissas elementares. A primeira é que, sob circunstâncias comuns, seres humanos são tão razoáveis e decentes quanto os é permitido ser, e podem organizar a si mesmos e às suas comunidades sem precisar que os digam como. A segunda é que o poder corrompe. Acima de tudo, anarquismo é apenas uma questão de ter a coragem de assumir os princípios simples de decência comum pelos quais todos vivemos e segui-los às suas conclusões lógicas. Por mais estranho que possa parecer, nos sentidos mais importantes você provavelmente já é um anarquista – você apenas não percebeu ainda.
Vamos começar por alguns exemplos da vida cotidiana.
  • Se há uma fila para entrar em um ônibus cheio, você espera sua vez e evita abrir caminho empurrando os demais mesmo na ausência de fiscalização?
Se você respondeu que “sim”, então você está acostumado a agir como um anarquista! O princípio anarquista mais básico é a auto-organização: a premissa de que seres humanos não precisam ser tratados coercitivamente a fim de que sejam capazes de chegar a acordos razoáveis uns com os outros, ou de tratar-se com dignidade e respeito.

Todo mundo acredita que é capaz de se comportar de forma razoável por conta própria. Se eles acreditam que leis e polícia são necessários, isso se dá apenas porque eles não acreditam que outras pessoas são capazes do mesmo. Mas se você pensar a respeito, essas pessoas não se sentem exatamente da mesma maneira sobre você? Anarquistas argumentam que praticamente todo comportamento antissocial que nos faz pensar serem necessários exércitos, polícia, prisões e governos para controlar nossas vidas é causado, na verdade, pelas desigualdades e injustiças sistemáticas tornadas possíveis por esses exércitos, polícias, prisões e governos. É todo um círculo vicioso. Se pessoas estão acostumadas a serem tratadas como se suas opiniões não importassem, elas estão propensas a se tornarem nervosas e cínicas, até mesmo violentas – o que, evidentemente, facilita para que os que estão no poder digam que suas opiniões não importam. Uma vez que entendam que suas opiniões realmente importam tanto quanto as de qualquer outra, elas tendem a se tornarem notavelmente compreensivas. Para encurtar a história: anarquistas acreditam que o próprio poder e seus efeitos são os maiores responsáveis por tornarem as pessoas estúpidas e irresponsáveis.
  • Você é membro de um clube ou equipe esportiva ou qualquer outra organização voluntária na qual as decisões não são impostas por um líder, mas são tomadas com base em consenso geral?
Se você respondeu que sim, então você pertence a uma organização que funciona sob princípios anarquistas! Outro princípio anarquista básico é a associação voluntária. Essa é apenas uma questão de aplicar princípios democráticos à vida comum. A única diferença é que anarquistas acreditam que deveria ser possível ter uma sociedade na qual tudo poderia ser organizado nesses parâmetros, todos os grupos baseados no livre consenso de seus membros e que, portanto, todas as organizações do estilo militar e hierárquicas, como exércitos ou burocracias e grandes corporações, baseadas em cadeias de comando, não seriam mais necessárias. Talvez você não acredite que isso seria possível. Talvez você acredite. Mas cada vez que você chega a um acordo por consenso ao invés de ameaças, cada vez que você faz um arranjo voluntário com outra pessoa, chega a um entendimento, ou assume um compromisso levando em devida consideração a situação ou necessidades particulares da outra pessoa, você está sendo um anarquista – mesmo se você não se dá conta disso.
Anarquismo é apenas o modo como as pessoas agem quando elas são livres para fazer o que quiserem e quando lidam com outros que são igualmente livres – e, portanto, conscientes de suas responsabilidades com os demais envolvidos. Isso nos leva a outro ponto crucial: que enquanto as pessoas podem ser razoáveis e ponderadas quando estão lidando com iguais, a natureza humana é tal que não se pode confiar nelas quando possuem poder sobre outras pessoas. Dê a alguém tal poder e ele irá quase que invariavelmente abusar disso de uma forma ou de outra.
  • Você acredita que a maior parte dos políticos são porcos egoístas e interesseiros que não estão nem aí para o interesse público? Você acha que vivemos em um sistema econômico que é estúpido e injusto?
Se você respondeu que “sim”, então você assina embaixo da crítica anarquista da sociedade contemporânea – ao menos em seus contornos mais gerais. Anarquistas acreditam que o poder corrompe e que aqueles que passam suas vidas inteiras buscando o poder são as últimas pessoas que deveriam tê-lo. Anarquistas acreditam que nosso sistema econômico atual é mais propenso a recompensar pessoas por seu comportamento egoísta e inescrupuloso do que por serem seres humanos decentes e interessados. A maior parte das pessoas se sente dessa forma. A única diferença é que a maior parte das pessoas não pensa que algo possa ser feito a respeito ou, de qualquer forma – e isso é o que os fiéis servos dos poderosos estão sempre mais propensos a insistir –, algo que não acabe deixando as coisas ainda piores.

Mas e se isso não fosse verdade? E há realmente alguma razão para acreditar nisso? Quando você pode testá-las realmente, a maior parte das previsões usuais sobre o que aconteceria sem estados ou capitalismo se mostra completamente falsa. Por centenas de anos pessoas viveram sem governos. Em muitas partes do mundo, pessoas hoje vivem fora do controle dos governos. Elas não se matam todas umas às outras. Em sua maioria elas apenas seguem com suas vidas da mesma forma que qualquer outra pessoa. É claro que em uma sociedade complexa, urbana, tecnológica, tudo isso seria mais complicado: mas a tecnologia também pode fazer com que seja muito mais fácil resolver todos esses problemas. Na verdade, nós nem começamos a pensar sobre com o que nossas vidas se pareceriam se a tecnologia fosse realmente direcionada para se adequar às necessidades humanas. Quantas horas realmente teríamos que trabalhar para manter uma sociedade funcional – isso é, se nos livrássemos de todas as ocupações inúteis ou destrutivas, como operadores de telemarketing, advogados, guardas de prisão, analistas financeiros, especialistas em relações públicas, burocratas e políticos, e deixássemos nossas melhores mentes científicas livres do trabalho em armamento espacial ou sistemas de mercados de ações e voltadas para a mecanização e afastamento de tarefas perigosas ou irritantes como mineração de carvão ou limpeza do banheiro, e distribuíssemos o trabalho restante igualmente entre todos? Cinco horas por dia? Quatro? Três? Duas? Ninguém sabe, porque ninguém está nem mesmo fazendo esse tipo de pergunta. Anarquistas pensam que são essas as perguntas que deveríamos estar fazendo.
  • Você realmente acredita nas aquelas coisas que conta para suas crianças (ou que seus pais contaram para você)?
“Não interessa quem começou.” “Dois erros não fazem um acerto.” “Limpe sua própria bagunça.” “Não seja rude com as pessoas apenas porque elas são diferentes.” Talvez devêssemos decidir se estamos mentindo para nossas crianças quando contamos a elas sobre certo ou errado, ou se estamos dispostos a levar a sério nossas injunções. Porque se você levar esses princípios morais às suas conclusões lógicas, você chega ao anarquismo.

Pegue o princípio de que dois erros não fazem um acerto. Se você realmente leva-lo a sério, sozinho ele derrubaria praticamente todas as bases que sustentam a guerra e o sistema criminal de justiça. O mesmo para compartilhamento: estamos sempre dizendo às crianças que elas precisam aprender a compartilhar, a serem compreensivas com as necessidades dos outros, a ajudar os outros; e então saímos para o mundo real, onde presumimos que todo mundo é naturalmente egoísta e competitivo. Mas um anarquista iria pontuar: na verdade, o que dizemos às nossas crianças está certo. Praticamente cada grande realização importante na história humana, cada descoberta ou conquista que melhorou nossas vidas, tem sido baseada em cooperação e ajuda mútua; mesmo hoje, muitos de nós gastamos mais do nosso dinheiro com nossos amigos e familiares do que com nós mesmos; ainda que provavelmente sempre existirão pessoas competitivas no mundo, não há motivo pelo qual a sociedade tenha que ser baseada no encorajamento desse tipo de comportamento, quanto mais deixar as pessoas competirem pelas necessidades básicas da vida. Isso serve apenas aos interesses das pessoas no poder, que quer que vivemos com medo uns dos outros. É por isso que anarquistas clamam por uma sociedade baseada não apenas na associação livre, mas na ajuda mútua. O fato é que muitas crianças crescem acreditando na moralidade anarquista, e então gradualmente tem que perceber que o mundo adulto na verdade não funciona dessa forma. Essa é a razão pela qual muitos se tornam rebeldes, ou alienados, e mesmo suicidas quando adolescentes e, por fim, resignados e amargos quando adultos; com frequência, seu único consolo é a possibilidade de criar seus próprios filhos e fingir para eles que o mundo é justo. Mas e se pudéssemos realmente começar a construir um mundo que fosse de fato fundado pelo menos em princípios de justiça? Não seria esse o maior presente que alguém poderia dar a seus filhos?
  • Você acredita que seres humanos são fundamentalmente corruptos e maldosos, ou que certos tipos de pessoas (mulheres, pessoas de cor, a gente comum que não é rica ou altamente educada) são espécimes inferiores, destinadas a serem governadas por seus superiores?
Se você respondeu que “sim”, então, bem, parece que você não é um anarquista afinal. Mas se você respondeu que “não”, então é possível que você já tenha assinado embaixo de 90% dos princípios anarquistas e, muito provavelmente, está vivendo sua vida amplamente em acordo com eles. Toda vez que você trata outra pessoa com consideração e respeito, você está sendo um anarquista. Toda vez que você resolve suas diferenças com os outros chegando a um acordo razoável, ouvindo o que cada um tem a dizer ao invés de deixar uma pessoa decidir para todos os demais, você está sendo um anarquista. Toda vez que você tem uma oportunidade de forçar alguém a fazer algo, mas decide, ao invés disso, apelar para seu senso de razão e justiça, você está sendo um anarquista. O mesmo se aplica a toda vez que você compartilha algo com um amigo, ou decide quem irá lavar os pratos, ou faz qualquer coisa com vistas à equidade.

Agora, você pode alegar que tudo isso é muito bom e bacana como caminho para pequenos grupos de pessoas se relacionarem umas com as outras, mas gerenciar uma cidade, ou um país, é uma questão inteiramente diferente. E claro que há algo aí. Mesmo se você descentralizar a sociedade e colocar o máximo de poder possível nas mãos das comunidades pequenas, ainda haverá muitas coisas que precisarão ser coordenadas, da operação de estradas de ferro à decisão sobre as direções da pesquisa médica. Mas só porque algo é complicado não quer dizer que não há uma forma de fazê-lo democraticamente. Seria apenas complicado. De fato, anarquistas tem todo tido de ideias diferentes e visões sobre como uma sociedade complexa poderia se gerir. No entanto, explica-las seria ir bem além do escopo de um pequeno texto introdutório como esse. Basta dizer, em primeiro lugar, que muitas pessoas tem despendido muito tempo pensando em modelos de como uma sociedade realmente democrática e saudável poderia funcionar; mas, em segundo lugar, e tão importante quanto, nenhum anarquista alega ter um plano perfeito. A última coisa que queremos é impor de qualquer maneira modelos pré-fabricados sobre a sociedade. A verdade é que provavelmente não podemos imaginar nem a metade dos problemas que irão aparecer quando tentarmos criar uma sociedade democrática; ainda, confiamos que, sendo a criatividade humana como é, tais problemas sempre podem ser resolvidos, desde que ela esteja no espírito de nossos princípios básicos – que são, no fim das contas, simplesmente os princípios da decência humana fundamental.

"Genes e consequências", por Susan Schneider

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Trecho extraído do livro “A Ciência das Consequências”, de Susan Schneider.
 

"A GENÉTICA DAS CONSEQUÊNCIAS

Como identificamos os genes envolvidos na aprendizagem por consequências? Miríades de componentes interagindo devem ser tomados separadamente.  

“Genes precoces imediatos” podem ser expressos minutos após a estimulação apropriada (incluindo experiências externas como trabalhar por consequências). Um gene precoce imediato chamado c-fos é ativo no cérebro. Quando neurônios disparam, c-fos são expressos, portanto, rastreá-los é uma forma de rastrear a atividade neuronal.

Em um estudo antigo, alguns pintinhos de galinha recém-nascidos aprenderam a bicar claras de ovos fatiadas (uma comida favorita, compreensivelmente). As claras de ovo foram espalhadas sobre um piso de pedrinhas, e a princípio os pintinhos perderam tempo e esforços bicando pedrinhas, ou mesmo bicando as claras, mas sem sucesso. Como mencionado no capítulo anterior, precisão é algo que se aprende através de consequências – sucesso e fracasso. Um grupo experimental continha uma sessão com apenas pedrinhas, e uma segunda sessão com pedrinhass e mais comida e um bocado de aprendizagem. Um segundo grupo experimental continha duas sessões com pedrinhas e mais comida. Esses pintinhos eram gênios em bicadas precisas já ao final da segunda sessão, de modo que não havia muita aprendizagem nova ocorrendo. Um grupo controle acabou apenas com pedrinhas, enquanto um segundo grupo controle simplesmente permaneceu em casa.

O foco foi o prosencéfalo, o equivalente para o pintinho de nosso córtex cerebral. O que aconteceu por lá com a atividade genética dos c-fos e outro gene precoce imediato relacionado, o c-jun? Os pintinhos da condição pedrinhas-mais-comida que estavam apenas começando a aprender demonstraram o maior aumento nas duas formas de RNA mensageiro (ácido ribonucleico) produzido pelos dois genes, seguido de um pequeno aumento para o grupo dos gênios. Os dois grupos controle não demonstraram praticamente nenhuma atividade dos genes.

Em um follow-up, outro estudo comparou a ativação do gene c-fos no córtex motor em três grupos de ratos fêmeas: um grupo “acrobático” que aprendeu a negociar uma pista de obstáculos por uma recompensa, outro grupo que se exercitou tanto quanto mas sem aprendizagem, e um grupo controle inativo. O gene do córtex motor foi ativado apenas com a aprendizagem por consequências – e não por exercícios qualquer. Esses estudos ajudaram a lançar luz sobre o papel dos genes e a neurociência relevante (veja o capítulo 4).

A aprendizagem por consequências envolve memória, percepção, e outros processos. Investigando um gene diferente, o dCREB2, Tim Tully e seus colegas deram choques em moscas da fruta na presença de um odor sinal. Em um labirinto simples, os insetos escolhiam entre aquele odor e um novo odor, não pareado – consequências diferentes. Escolhendo o novo odor, os insetos aprenderam de forma rápida e com alta precisão. Dependendo de como exatamente foi estruturado o treino, a aprendizagem ainda ocorreu, mas não foi retida quando a atividade normal do dCREB2 foi artificialmente diminuída. Progresso. (Curiosamente, CREBs de mamíferos são similares ao dCREB2.) E, mais recentemente, em ratos pressionando a barra por água, genes chamados BDNF e Arc estavam ativos no córtex pré frontal enquanto a aprendizagem inicial e mudanças no cérebro associadas ocorreram. Esses genes estavam menos ativos durante a simples manutenção do comportamento.  Mais progresso.

Adiante nessa longa estrada de pesquisas, assim como físicos se divertem nomeando quarks (por exemplo, charmoso), biólogos também podem ser engraçados (o gene sonic hedgehog). Um gene chamado Klingon pode estar diretamente envolvido com as mudanças que estão na base da aprendizagem por consequências, e muitos outros genes foram sugeridos. Como uma fã de Star Trek, estou animada. (Capitão Picard, alguém?).


INTERAÇÕES POR TODA PARTE

Uma coisa que sabemos é que o sistema como um todo está funcionando: genes, processos celulares, hormônios e neurotransmissores, fatores ambientais de todo tipo, a coisa toda. Um grande mal entendido sobre natureza “versus” desenvolvimento tem sido o fato de ser tratada como uma proposição esse ou aquele, na qual contribuições genéticas e ambientais para um produto psicológico ou fisiológico podem ser separadas. Ao invés disso, é sempre “natureza e desenvolvimento”– sempre genes e ambiente trabalhando juntos. Atualmente, os próprios geneticistas nos asseguram disso.

Mantidos outros fatores constantes, por exemplo, a diferença em um único gene parece responsável por uma diferença na cor do olho de uma mosca da fruta. Mas aquele gene não pode ser tomado como o responsável por codificar para a cor do olho, o que é o resultado do trabalho conjunto de muitos genes e fatores ambientais. De fato, dois olhos de cores diferentes – uma condição comum em gatos, e rara, mas regular em humanos – pode ser causada tanto por anormalidades genéticas ou não genéticas (incluindo ambientais), como infecções ou exposição a ferro. Em um caso de síndrome de Horner, o difícil parto de um bebê de cinco quilos e meio foi considerado o causador da condição.

De forma semelhante, doenças “genéticas”, mesmo as poucas de um só gene, não são muito bem definidas. Se você fica preso ao genótipo problemático, você terá a doença, correto? Não, nem sempre funciona assim. Ao invés disso, você pode dar sorte com outros aspectos genéticos ou ambientais que compensam seu problema. Pessoas com a mesma mutação de anemia falciforme, por exemplo, podem ter diferentes níveis da doença. Em homens, algumas vezes o único sintoma aparente é esterilidade. Ainda mais surpreendente, você ainda pode ter uma das doenças se não tiver o genótipo problemático (a doença de Huntington, por exemplo). E há sempre múltiplos caminhos para o mesmo resultado.

E fica ainda mais interessante. Cada um de nós possui duas cópias de um gene, um pra cada parente. Para a maioria das pessoas, uma cópia da versão normal 3 do gene APOE, mais uma cópia da versão 4, é igual a problema – um risco aumentado de doença arterial coronariana (outras coisas mantidas iguais). Substitua a versão 2 pela versão 4 e você está em melhor situação. No entanto, para pessoas com alto colesterol, é a versão 2 que carrega o risco mais alto. Os efeitos de uma mudança num único gene como essa podem, assim, variar amplamente, dependendo de tudo o mais que estiver ocorrendo no sistema. Como esse é o caso, estudos de inativação de genes podem apresentar consequências inesperadas. Surpreendentemente, muitas vezes, quando um gene “crítico” é inativado, nada acontece. O sistema possui rotas alternativas para realizar seja lá o que for necessário.

A mensagem “é um sistema” foi clarificada e enfatizada anos atrás pela equipe de pesquisa de Mark Cierpial e Richard McCarty. A raça de ratos “espontaneamente hipertensos” produz animais que exibem as características da hipertensão humana (pressão sanguínea alta). Parece simples e direto, não? Mas a hipertensão se desenvolve apenas quando os jovens ratos são criados pelas mães da mesma raça. Se criados por mães típicas, eles não a demonstram – o mesmo para os jovens criados pelas mães espontaneamente hipertensas. Ambos, genes e ambiente, são essenciais. É um sistema.

Aqui vai outro exemplo que se relaciona com tudo que você puder imaginar. O biopsicólogo Stephen Suomi comandou uma série de estudos focados no neurotransmissor serotonina, que é envolvido na aprendizagem por consequências, emoção, e muito mais (incluindo digestão em seus intestinos). Neurotransmissores são as substâncias químicas que transmitem sinais do cérebro através das sinapses, lacunas entre os neurônios; eles são críticos para a função cerebral. Em alguns casos, a forma curta do gene transportador de serotonina pode ser um problema.

Suomi descobriu que ser criado por seus jovens companheiros não é muito melhor para macacos resos do que seria para crianças. Mas verificou-se que esses macacos criados por eles mesmos se saíam especialmente mal se fossem fadados à “versão curta” daquele gene da serotonina: outros fatores mantidos constantes, tais macacos eram mais propensos a ser impulsivos e agressivos e a beber mais álcool (indicando que essa era uma grande recompensa) A forma curta é sempre problemática? Eis que, quando jovens com a forma curta e com a forma longa foram criados por mães adotivas, os de forma curta com frequência se saíram melhor: eles beberam menos, foram menos impulsivos, e acabaram em posições mais altas na hierarquia de dominância. O processo não é nem simples, nem direto. Assim como para o gene APOE, os efeitos de um genótipo podem variar consideravelmente dependendo do que mais está acontecendo. Nós estamos lidando com sistemas grandes e complexos aqui, cheios de fatores interagindo.


O QUE É HEREDITÁRIO – E O QUE NÃO É

Uma fonte de confusão sobre a complexidade desse sistema-gene-ambiente é o termo científico hereditariedade. Ele não quer dizer o que parece dizer.

Considere sementes geneticamente modificadas desenvolvidas em um ambiente controlado idêntico a todas elas. Quaisquer diferenças na altura dessas plantas devem ser causadas por diferenças genéticas, porque todo o resto é idêntico. A hereditariedade para a altura é de 100 por cento nesse caso, porque toda a variação na altura deve ser devido a variações nos genes. Agora considere sementes da mesma planta, todas clones com genes idênticos, desenvolvidas em ambientes que não são idênticos. Quaisquer diferenças na altura, nesse caso, devem ser devido a variações ambientais, bem como outras variações não genéticas; portanto, a hereditariedade é 0. Para o mesmo traço na mesma espécie, a hereditariedade pode ser 0 ou 100 por cento, ou qualquer coisa no meio disso. Depende das circunstâncias. (Números de hereditariedade se aplicam apenas a populações particulares, em circunstâncias particulares, e nunca a indivíduos.)

Além disso, em todos esses grupos, plantas obviamente precisam de solo, água, e luz do sol para crescer. Eles não crescem muito alto sem os genes, também. Hereditariedade parece referir-se ao grau em que um traço, como a altura, é determinado pelos genes. Não é isso que ela se refere.

Considere agora o caso de plantas clonadas criadas em ambientes diferentes. Se elas acabarem tendo a mesma altura, podemos concluir que os genes controlam a altura? Claramente não. Novamente, plantas obviamente precisam de solo, água, e luz do sol para cresce. Todos os fatores natureza-desenvolvimento estão contribuindo para a altura, e estão interagindo de formas complexas. Qualquer jardineiro pode te dizer isso.

E fica melhor. Nosso número de dedos das mãos e dos pés calhou de ter muito pouca hereditariedade: a maior parte da variação é devida a acidentes, e não a diferenças em genes. Mas o uso de brincos na América dos anos 1950 tinha alta hereditariedade: normalmente, apenas mulheres usavam brincos na época, o que explicava a conexão genética. Não é como se genes e as proteínas que eles codificam tem alguma coisa a ver com brincos diretamente, é claro.  

Os infames estudos com gêmeos têm sido frequentemente mal interpretados também, apesar de serem parte do passado hoje em dia. Suponhamos que ambos os gêmeos idênticos criados separadamente adorem um homem chamado Bill, punk rock, e mountain biking. Bem, genes codificam proteínas, não uma paixão pelo The Clash. O que explica, então, tais características compartilhadas? David S. Moore cobriu as principais explicações em seu livro The Dependent Gene. Elas incluem crescer na mesma época e compartilhar raça, gênero, e (usualmente) classe social similar, instrução, e aparência. Diante dessas circunstâncias, a chance estatística de compartilharem gostos e desgostos é alta mesmo entre pessoas sem relação alguma.

Além do mais, diferenças tendem a ser negligenciadas no alvoroço sobre o poder da coincidência. De fato, como David Shenk demonstrou em seu livro O Gênio em Todos Nós, dois documentários televisivos sobre surpreendentes semelhanças em gêmeos idênticos criados separadamente tiveram que ser cancelados, porque, em um exame mais cuidadoso, os gêmeos eram cheios de diferenças surpreendentes. Alguns gêmeos idênticos criados separadamente nem parecem ser parentes. Em um caso, por exemplo, um gêmeo era baixo e magro, e o outro, substancialmente mais alto e gordinho.

Era de se esperar que animais clonados fossem mais “idênticos”, mas aqui também os efeitos de todos os outros fatores se fazem notar. Mesmo nematoides pequenos e geneticamente idênticos, criados de forma idêntica, nunca são idênticos. (E estamos falando de 1,000 células aqui – o pacote completo desses animais.) Clones de camundongos e gatos variam em muitos sentidos, de padrões de cores a comportamento. Mesmo quando alimentados pela mesma dieta, apenas alguns dos camundongos clonados ficaram acima do peso, por exemplo.

Assim como os gêmeos e os clones, as pessoas com o mesmo pool genético podem seguir caminhos distintos. Os indígenas Pima formam um grupo geneticamente relacionado que, inadvertidamente, conduziram um experimento natural: membros dos Estados Unidos adotaram um novo e menos saudável estilo de vida que seus parentes do outro lado da fronteira do México. Os níveis de obesidade e diabetes no grupo americano se tornaram muito maiores, a despeito de seus genes compartilhados

(...)


sábado, 4 de junho de 2016

Segredos da Ciência

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Segredos da Tribo é o nome de um documentário de 2010 dirigido pelo brasileiro José Padilha, largamente inspirado no livro lançado em 2000 Trevas do Eldorado, pelo jornalista Patrick Tierney. Ambos contam, cada um a seu modo e por mídias diferentes, um pouco dos bastidores daquela que é considerada a "ciência da alteridade" e "ciência do homem", e que atende pelo nome de Antropologia. 

Notem que me referi ao documentário como um retrato de bastidores da ciência antropológica do século XX, sem referência aos Ianomamis e sua importância para a história contada no filme, o que pode parecer um pouco indelicado, na melhor das hipóteses, e muito racista, na pior (e talvez mais acertada) das hipóteses. Mas minha descrição é proposital, por motivos que vou pontuar ao longo deste texto e que retomarei mais ao final.

Problema 1. O antropólogo estadunidense Napoleon Chagnon foi pioneiro no contato e estudo de um povo amazônico chamado Ianomami. Vivendo entre as matas da Amazônia venezuelana e brasileira, essas pessoas permaneceram um mistério para o "Ocidente" até meados da década de 1960, quando Chagnon se aventurou por essas bandas e iniciou pesquisas etnográficas na região, com o objetivo de estudar e compreender o modo de vida dos remanescentes "homens selvagens". Dentre as práticas do etnógrafo estão o escambo de ferramentas e objetos ocidentais caros aos indígenas, em troca de acesso irrestrito ao povo e aos rituais. Chagnon adquire o status de "indígena visitante", e viveria por muito tempo com os Ianomamis entre idas e vindas de suas expedições.

Entre as contribuições teóricas de Chagnon para a discussão milenar sobre a "natureza humana" estão seus dados etnográficos, estatisticamente ordenados de modo a corroborar sua hipótese sociobiológica de que a possibilidade de reprodução e, consequentemente, o domínio territorial e das mulheres, são os motores da evolução. Nesse cenário, escreveu livros já famosos em cursos de Antropologia, nos quais descreve os Ianomamis como ferozes guerreiros. Como o próprio Chagnon deixa claro em seu depoimento para o documentário, há uma briga antiga entre "clãs" da Antropologia: os antropólogos culturais e os antropólogos biológicos não concordam sobre os principais fatores responsáveis pelas mudanças e evoluções das culturas, os primeiros defendendo condições ambientais/sociais, os últimos defendendo condições biológicas, inclusive genéticas.

Problema 2. A polêmica sobre as hipóteses e os dados de Chagnon é largamente assunto acadêmico, não é mesmo? Vamos então a Kenneth Good. Estudante de Chagnon, o antropólogo estadunidense não concorda com as hipóteses de seu professor e, de acordo com a escola culturalista e com as ideias do materialista estrutural Marvin Harris, outro nome proeminente do cenário acadêmico estadunidense, vai a campo investigar as condições materiais de existência da tribo. Polêmicas a parte sobre as argumentações dos grupos em disputa, com as evidências sendo torcidas e repuxadas e pendendo hora para um lado hora para outro, Good se envolve com uma Ianomami de não mais do que 13 anos de idade. Argumentando em seu favor que os padrões daquela cultura permitem tal envolvimento, Good se casa com a jovem, tem três filhos com ela, mora por anos na região até que se mudam para Nova Iorque, e lança um livro sobre sua "história de amor" e sua jornada como antropólogo.

Problema 3. Além desses dois nobres personagens, um terceiro nome importante é Jacques Lizot. Aluno e protegido do grande Claude Lévi-Strauss, Lizot teria sido impelido pelo estruturalista francês a estudar os Ianomami em nome de desvendar sua língua e conhecer seus mitos, e assim o fez por décadas a fio. Lizot, assim como Chagnon, foi e ainda é uma autoridade a respeito dos Ianomami, tendo vivido por muitos e muitos anos com os indígenas, participado de missões em nome do governo francês e lançado dicionários e livros sobre as línguas Ianomamis. O grande porém é: há toneladas de indícios de que ele trocava objetos e ferramentas por favores sexuais de jovens das tribos, especificamente masturbação e sexo anal. Alguns desses jovens dão depoimento dos abusos no documentário, mas Lizot se recusou a participar.

Problema 4. Em uma dessas expedições às terras dos Ianomamis, o geneticista estadunidense James Neel, em parceria com Chagnon e outros profissionais, desenvolveu estudos sobre a genética populacional dos Ianomami, mas, para dificultar o trabalho do grupo, um surto de sarampo invadia a região, e um dos problemas que tiveram que enfrentar foi a proliferação da doença. O mencionado livro de Patric Tierney acusa ambos, James Neel e Chagnon, de não fazer nada para conter a doença e ainda administrar vacinas com doses de substâncias inadequadas ao tratamento dos indígenas; ainda, Tierney acusa Neel de tratar os indígenas como cobaias humanas, ou grupos controle, para investigar efeitos de exposição à radiação, a mando da Comissão de Energia Atômica. O resultado dessa complexa e desastrosa operação foi a morte de dezenas de pessoas, causando desolamento e devastação em grupos amplamente apoiados em parentesco.

*

Até então o que fiz foi uma breve descrição dos principais problemas abordados no documentário de Padilha. O fato é que a vida dos Ianomami parece ser o tempo todo apenas um pano de fundo para embates acadêmicos e políticos. Tierney e Padilha resgatam as vozes dos indígenas para fazer a crítica ao mundo acadêmico e aos descalabros feitos em nome da "ciência" e da "verdade", no entanto, os envolvidos se defendem afirmando que "interferir" na vida dos nativos é consequência natural do trabalho do pesquisador, e que a maior parte das críticas é infundada e maldosa. No caso do problema 1, Chagnon se comparou a Galileu, se dizendo injustiçado perante sua comunidade; no caso do problema 2, Good atacou Chagnon e se defendeu com base em um relativismo moral barato; no caso do problema 3, Lizot se recusou a dar entrevistas;  no caso do problema 4, Neel já faleceu, mas tanto Chagnon quanto uma literatura específica se dedicaram a defender o legado do geneticista.

O ponto central deste texto, para quem teve paciência de chegar até aqui, é o papel racista e dominador que o "homem branco ocidental" insiste em desempenhar quando se relaciona com pessoas de outras etnias, particularmente as indígenas.  O agravante nesse caso é que nem mesmo os antropólogos, que tem como arroz e feijão de sua formação a discussão sobre o racismo e o etnocentrismo, escapam dessa sina. Práticas culturais muito enraizadas e naturalizadas são muito fortes e resistentes, e o caso dos Ianomami é só mais um exemplo do quanto a relação de ampla dominação do homem branco com o Outro tem vencido sistematicamente a alteridade.

Se a dominação é presente até mesmo no seio da ciência humana da alteridade, é de se esperar que os demais empreendimentos científicos reproduzissem padrões semelhantes. O maior problema envolvido nessa equação é a separação ocidental entre o individuo, na forma de um eu racional e imaterial, e o mundo, na forma da realidade objetiva ou concreta. O psicólogo B. F. Skinner chamou isso de mentalismo; o antropólogo Tim Ingold chamou isso de representacionismo ocidental; mas há muitas fontes de críticas a esse tipo de pensamento dicotômico e tipicamente ocidental, por vezes acompanhados de propostas ontológicas e epistemológicas de soluções, por vezes com propostas "desconstrucionistas" que não oferecem nada para por no lugar.

Ainda que Skinner e Ingold tenham identificado o problema e oferecido uma ontologia e uma epistemologia para por no lugar, os empreendimentos científicos que a eles antecedem e, em certo sentido até mesmo sucedem, não conseguiram ainda se livrar das dicotomias. Há quem diga que estamos na era de uma ciência sobre "coisa" alguma - e estou de pleno acordo com a proposta -, mas não conseguimos ainda nos livrar de uma forma de compreender a realidade e de produzir conhecimento presas ao mentalismo ou ao representacionismo. Há importantes analistas do comportamento que ainda abraçam a ideia de um mundo real e concreto possível, em detrimento do comportamento do pesquisador, são os defensores dos "dados" e críticos da "ideologia" que atrapalha a visão imparcial dos fatos. Há um mundo de antropólogos e, de fato, como o próprio documentário realçou, uma briga enorme entre escolas antropológicas que debate qual seria uma ontologia apropriada para uma ciência da humanidade e da cultura.

Para ficar em alguns exemplos, ignorando ensinamentos básicos do comportamentalismo radical que questionam a existência de um mundo independente do observador, afirmando que a realidade que interessa é a realidade comportamental, há pesquisadores e pesquisadoras que afirmam que "a ciência não tem sexo", logo, não há a necessidade de discutir questões de gênero dentro da comunidade; de forma semelhante, alguns questionam a supostamente ultrapassada dicotomia "esquerda" e "direita", ideologias que atrapalham a visão lúcida dos dados ou fatos da realidade por parte do cientista. Na antropologia, ainda há escolas que afirmam que toda a multiplicidade das formas de vida e culturas humanas é resultado de uma necessidade única e geneticamente determinada, o sucesso reprodutivo. Longe de questionar a miopia em medir todos os fenômenos com a mesma régua (afinal, a realidade é uma só, não é mesmo?), parece evidente que a biologia é o começo, o meio e o fim, e contextos sociais e toda sua riqueza são apenas veículos para a criatividade e necessidade dos genes.

Finalizo este já longo texto com duas passagens que considero avanços na direção de uma ciência das relações diametralmente oposta à essas praticadas pelos personagens envolvidos nos eventos cobertos pelo documentário Segredos da Tribo, e por psicólogos envolvidos nos exemplos que descrevi:


Verdade. A verdade de uma afirmação de fato está limitada pelas fontes do comportamento do falante, pelo controle exercido pelo cenário atual, pelos efeitos de cenários semelhantes no passado, pelos efeitos sobre o ouvinte conducentes a precisão, exagero ou falsificação, e assim por diante. Não há maneira de uma descrição verbal de um cenário poder ser absolutamente verdadeira. Uma lei científica é possivelmente derivada de muitos episódios desse tipo, mas é igualmente limitada pelo repertório dos cientistas envolvidos. A comunidade verbal do cientista mantém sanções especiais, no esforço de garantir validez e objetividade, mas, uma vez mais, não pode haver um absoluto. Nenhuma dedução de uma regra ou lei pode, por isso, ser absolutamente verdadeira. Se houver uma verdade absoluta, ela só pode ser encontrada em regras derivadas de regras, e isto é mera tautologia" (Skinner, 1974).



"Cada ser emerge, com sua forma particular, disposições e capacidades, como um locus de crescimento (...) dentro desse campo. A mente, portanto, não é adicionada à vida, mas é imanente no engajamento intencional, na percepção e ação de seres vivos com os aspectos constituintes de seus ambientes. Logo, o mundo não é um domínio externo de objetos que eu olho ou manipulo, mas sim uma contínua geração entre eu e o mundo ao meu redor. Como tal engajamento primário é uma condição do ser, também deve ser uma condição do conhecimento, seja o conhecimento em questão considerado 'científico' ou não. Todo o conhecimento científico apropriado repousa sobre a observação, mas não pode haver observação sem participação - sem o observador ou a observadora unindo o movimento de sua atenção às correntes circundantes de atividade. Portanto,  abordagem que tenho seguido aqui não é uma alternativa à ciência (...); ela busca restaurar as práticas da ciência aos contextos da vida humana no mundo. Pois é a partir desses contextos que todo o conhecimento cresce" (Ingold, 2001).
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